Saturday, August 20, 2005

Petit-Grand Souvenir (das séries "Crónicas de Viagens")

Triste - um sentimento de rejeição * atravessava-me a alma - calcorreava o calor de Olímpia que me apertava as veias quando vejo o oriental que insistentemente se tem cruzado nos meus trajectos, sem nunca nos falarmos.

Desta vez olhamo-nos, esboçando um cumprimento. Fez um sinal pedindo-me um instante. Atravessando a estrada veio ter comigo ao mesmo tempo que tirava algo do saco a tiracolo. "Esta a sacar de um roteiro de viagens para me pedir uma informação ou conselho", matutei.


Para meu espanto tirou um pequeno objecto, talvez daqueles objectos orientais que dão sorte ao seu portador, dizendo-me num inglês pouco claro que era coreano e que aquela pequena lembrança era para mim. Despedimo-nos fazendo venias mútuas e repetidas.


* pior que a rejeição é o sentimento obliterador de ter deixado passar o "timing". É um sentimento de vazio radical. Aqui teria sido a incapacidade de me ter "declarado" - não teria sido necessário muito - à bela, belíssima filha do dono do alojamento. Este tipo de vazio é da ordem existencial e pode conduzir ao final.


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La Pax, 7 de Agosto 2003.



"Agora que eu canto aqui

o vento transporta-me
sobre os trilhos daqueles que partiram
eu posso entao chegar à Montanha do poder.

Cheguei ás Grandes Montanhas do Céu

O poder daqueles que partiram retorna sobre mim.

Os do infinito falaram-me."


Poema de Lola Kiepja, última representante dos Onas ou Selk'nam's, traduzido por mim a partir da tradução francesa.


O que se passou com os Onas?

Muito simples: os criadores ingleses das Maldivas criaram grandes pastos na Patagónia Argentina e Chilena. Os Onas que desconheciam a propriedade privada roubavam de vez em quando umas cabeças de gado para comerem.

Os ingleses nao estiveram com meias medidas: uma libra esterlina por cada par de orelhas levou a que os mercenários dizimassem pura e simplesmente a etnia. Isto nao foi há séculos! Foi ontem. As últimas fotografias desta etnia das quais tenho cópias datam de 1936! A "humanidade do homem" é atroz... [reflexão "a-posteriori": Heidegger refere-se ao ser humano. Só Lacan é que mais tarde diferenciou as "estruturas psíquicas" do homem e da mulher, abrindo a possibilidade teórica da "humanidade do homem" de Heidegger não equivaler à "humanidade" do ser humano e de uma civilização dirigida pelas mulheres poder ser diferente: com a formulação da teoria das "estruturas psíquicas" Lacan trouxe alguma esperança à espécie humana. Uma esperança teórica, que num futuro não assim tão longínquo, pelo menos na "civilização ocidental", se irá confirmar ou infirmar]


No Chile poderia ser Chileno. Aqui sou um estrangeiro, amigo mas estrangeiro. Aqui nao se extreminarm os nativos. Estes podem ainda nao deter o poder político mas para lá se caminha. Inevitavelmente o que nao significará necessariamente maior racionalidade na distribuicao da riqueza... Mas também nao significará o contrário e o contrário é o que se passa agora. É verdade que me movimento relativamente entre as "elites" de estudantes universitários ou profissionais "superiores", se bem que nao hesite em ir comer um "pexe-rei" ao "MercadoPopular" e prefira tomar um "colectivo" cheio de "cholas" do que ir numa excursao de turistas, mas também é verdade que parte destas "elites", pelo menos com quem eu convivo, estao de alguma forma sensibilizadas para o problema dos "povos originários" como aqui se diz para nao se dizer indigenas. No Chile a procura e a conservacao do património Mapuche é evidente por uma parte das "élites" que tëm apelidos europeus, sobretudo da geracao mais jovem. Mais no Chile do que na Bolívia existe esta sensibilizacao. Aqui o fosso entre o "avancado"(ou seja rico) e os "Cholos"(os "povos originais") é demasidao evidente.


O salário mínimo nem sei se existe, mas sei que um professor do secundário ganha cerca de 100 dólares! Um ministro ganha 3.000! O "trabalho" de uma advogada que suportou a defesa de um contrato que levou o estado boliviano a perder cerca de 3 milhoes de dólares(!) em software que nao chegou a ser usado(!!!), foi pago pelo próprio estado na base de 5% do montante global do investimento!


Hoje subi ao alto do Chacaltaya. 5.600 metros. Nao é muito, mas para mim sim. Esperei que os dois companheiros de subida (dois catalaes) descessem. Fiquei sózinho rodeado de imensas montanhas cobertas de neve. Estava ensonado pela altura mas foi uma experiëncia transcendente. Muito mais trancendente do que tudo o que estudei em "filosofias trancendentais" (e outras) ao longo da licenciatura.


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O concerto


Ao passar em Londres a caminho do "concerto", fui a um concerto... Comprei o bilhete pela net, para evitar ter de escrever, e eis-me no concerto! Um concerto da orquestra sinfonica das escolas musicais de Londres... Mas que bem... De facto estava tudo em iniciais (podia ser uma super-orquestra...) e como o tempo escasseia e queria evitar ir aos prom's, comprei (sete libras, o normal, incluindo uma libra de taxa por comprar pela net...)!


Anos antes tinha escrito, num jornal nacional portugues, sobre o pianista solista que aparentemente continua igual a ele mesmo. Mas o segundo concerto de Rachmaninov... puf... "Raspei-me" da sala enquanto gritavam os bravos da praxe e deparei-me com um cockteil, onde entrei de imediato. Os empregados levantaram-se todos e eu dirigi-me a um tabuleiro onde umas flutes de champagne deixavam as bolhas dissolverem-se inutilmente. Ainda estava na primeira quando apareceu a anfitriã, perguntando-me, muito simpaticamente, quem eu era.


- Muito prazer!

- De Italia?
- De facto nao. Sou de Portugal.
- Pensei que fosse italiano. Pelo nome... mas consta da nossa lista.
- Ha sim?!
- Que lhe pareceu o concerto?
- Hum... na verdade...
- O pianista esteve muito bem...
- Ha!
- Vai escrever algo?
- Talvez... de facto... antes tenho de ir a um concerto...
- A concorrencia. A concorrência...
- Não, não...
- Dá-me licenca? Vem aí o ministro...
- Mas por favor, exclamei aliviado.

Na segunda parte estava um pouco anestesiado e a desafinada sinfonia fantastica, pareceu-me, de facto, fantástica.


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O que é um bom negócio na Argentina? 
"llegas al responsable del gobierno provincial encargado da cosa que te interessa, él te pergunta quanto tienes. Se respondes 14 mil, él te dirá dá-me 4 y te quedas con la cosa por los diez!", relatado em directo por um empresário! Mas... será que isto se passa só na Argentina


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Foi de antologia!

Em Cascaraz um professor reformado tinha-nos falado num tal Pico Del Inca que não consta nas cartas cartográficas e muito menos nos mapas.
Abriu um mapa velho.

-É aqui, disse apontando para um ponto.
-Partimos amanhã, retorqui com convicção apesar de não creer que ele acreditasse naquele mapa esburacado e ilegível.

Belix, a minha companheira, já nem comentava. Depois de calcorrearmos milhares de kilómetros, estava por tudo. Não percebia o que me movia. Eu também não. Mas era algo tão irrelevante e secundário que não merecia a reflexão mínima. Não podemos pretender aceder ao auto-conhecimento, sabia-o muitíssimo bem já naquela época. Uma coisa era certa: não fugia nem de mim mesmo, nem de fantasmas, nem de "outros". Caminhava, deslumbrado-me com coisas que fariam qualquer um ou outra aceder a igual condição. Belix, muitas vezes, tal como eu, contemplava simplesmente, não havendo qualquer troca de comentários. Seriam sempre excrescências ridículas face áquilo que prendia o nosso olhar. 
Neste caso caminhamos muito, mas mal: não chegamos ao misterioso Pico Del Inca.


[talvez porque escrevesse esta cronica à pressa, ou porque o terei feito numa cronica à parte, não referi a "cavalgada selvagem". Os cavalos selvagens que encontramos no topo onde chegamos, atacaram o meu cavalo (Belix e o guia seguiam em mulas). Tive de desmontar e defende-lo à pedrada. Mesmo assim a manada de cavalos selvagens perseguiu-nos até conseguirmos recuar até à povoação de onde tínhamos partido. Tivemos de demonstrar várias vezes e afastar a manada que nos perseguia. À pedrada. Quando as pilhas das lanternas começaram a estar fracas os animais recusavam mover-se, porque não conseguiam ver o caminho, tivemos que usar a pouca luminosidade que nos restava para iluminar o caminho imediatamente à frente do três animais, enquanto prestavamos atenção à direcção de onde vinham os ruídos, para atirarmos pedras nessa direção. Já não me recordo bem, mas creio que tanto Belix como o guia se fartaram de chorar porque pensavam que não conseguiriamos chegar à povoação]


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SENTADO NUMA PEDRA

(junto ao lago Titicaca)

- Este mar é tão grande que não lhe verás o fim.


Não eram ondas o brilhosinho lá ao fundo que me ofuscava o olhar perdido, perdido de qualquer outra realidade que não aquela pedra que me pareceu confortável, naqual me sentei e permanaci pensando reencarnar numa pedra semelhante dedicada a contemplar aquele mar tão alto numa eternidade tão exaustiva e contínua onde o tempo deixou de rodar onde o sentir deixou de palpitar onde o estado era o estado buscado, buscado em eternidades que se perdem incontinuamente porque há sempre quebras ainda que imaginemos que não, não porque interdependam de ti ou de mim mas porque são como tu e eu, são-o com a consistência do mesmo ser de ti e de mim e do outro e do Outro mas isso é significante dada a fluência da continua incontinuidade que nos marca e não só.


- Não sabes que não é um mar?


Não sabia nem valia a pena explicar porque o que interessa é que para ela é um mar e para mim também o era, era o que sentia que sentia mas nunca sabia nada do sentir por isso poderia ser um mar como poderia ser um lago, afinal não era isso o que me fazia permanecer. Nem a ti. Nem a ela, nem ao outro nem ao Outr@. (*)


(*) comentário eliminado devido a ser puramente teórico-especulativo.